O sertanejo é, sem dúvida, a trilha sonora de muitos brasileiros. Seja no churrasco de domingo, na trilha da viagem ou no coração partido, as músicas de duplas e artistas solo embalam gerações. Mas, convenhamos: além de embalar, o sertanejo também cutuca, provoca e, vez ou outra, levanta polêmicas que vão muito além do refrão grudento. Será que algumas letras são apenas desabafos de amor não correspondido ou escondem, por trás da sanfona e da viola, preconceitos que precisamos discutir?
Não é de hoje que a música reflete — e, às vezes, molda — comportamentos sociais. O sertanejo, que nasceu nas raízes rurais, foi evoluindo e hoje mistura pop, eletrônico e até funk. Mas uma coisa permanece: a paixão escancarada. O problema? Nem sempre o discurso do “amor sofrido” é tão inofensivo quanto parece. Em vários hits, encontramos letras que reforçam estereótipos de gênero, machismo, homofobia e até visões tortas sobre relacionamentos. E isso, claro, não passa despercebido pelo público nem pelos críticos.
Um dos exemplos mais famosos é “Atrasadinha”, de Felipe Araújo, que apesar de dançante, já foi alvo de debates por conta da narrativa de um homem controlando a rotina da parceira. A letra diz: “Me diz que horas são, pra eu saber se cê tá atrasadinha, cê combina mais comigo ou com a minha cama sozinha…”. Para alguns, é só uma brincadeira romântica; para outros, um sinal de ciúmes excessivo e controle, camuflados sob o pretexto do amor.
Outro clássico é “Você Vai Voltar Pra Mim”, de Zezé Di Camargo & Luciano, cujo refrão repete que “ninguém vai te amar assim”. Mas será que essa insistência é mesmo amor ou uma forma sutil de posse emocional? Psicólogos especializados em relacionamentos apontaram, em entrevistas recentes, que músicas assim podem reforçar a ideia de que insistir até o outro ceder é aceitável, quando, na vida real, isso pode ser um sinal de abuso emocional.
A lista não para por aí. Em 2023, a dupla Zé Neto & Cristiano virou assunto acalorado nas redes sociais com a música “Ela e Ela”, que fala sobre “duas mulheres brigando por um homem”. Muitos fãs se manifestaram, dizendo que a letra reforça o estereótipo da rivalidade feminina, como se o prêmio máximo da vida de uma mulher fosse conquistar um cara ciumento. Será que em pleno 2025 esse tipo de narrativa ainda cabe nas playlists?
E não é só o machismo que pega carona nessas canções. Em meio ao boom do sertanejo universitário, algumas letras chegaram a ser acusadas de homofobia e preconceito social. Em 2019, o hit “Homem de Família”, de Gusttavo Lima, foi criticado por defensores dos direitos LGBTQIA+ por dar a entender que só existe um modelo válido de família: o tradicional, com pai, mãe e filhos. O artista chegou a se pronunciar dizendo não ter intenção de ofender, mas o debate permanece atual: até que ponto a arte imita a vida, e quando ela ultrapassa o limite do aceitável?
O lado bom é que, pressionados pelo público e pela transformação social, muitos artistas vêm repensando suas letras. Algumas duplas, como Simone & Simaria, têm investido em canções que falam de amor-próprio, empoderamento e liberdade, mostrando que é possível, sim, falar de romance sem cair em clichês tóxicos. O sertanejo está mudando junto com a sociedade, mesmo que, às vezes, a passos de formiga.
Não dá para negar: o sertanejo faz parte do DNA brasileiro. Suas letras falam de risos, lágrimas, festas e fossa. Mas também é papel do fã — e do artista — questionar: estamos cantando sobre amor de verdade ou perpetuando velhos preconceitos? No fim das contas, ouvir música é também um ato de responsabilidade. Da próxima vez que aquele refrão grudar na sua cabeça, vale a pena prestar atenção: é paixão ou opressão?
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