Música

As histórias por trás das músicas de protesto

Há algo mágico – e profundamente subversivo – em ouvir uma música de protesto. Não é só o ritmo que contagia, é a mensagem, o grito engasgado na garganta que finalmente encontra espaço para ecoar. Já foi dito que a história é escrita pelos vencedores, mas a trilha sonora da resistência, ah! Essa é feita pelos inconformados, pelos que desafiam o status quo com notas, rimas e acordes. No Soundz, vamos mergulhar nas histórias de algumas das músicas de protesto mais emblemáticas de todos os tempos, revelando curiosidades, contextos históricos e aquele tempero inusitado que só a boa música, bem temperada pela indignação, consegue trazer.

Comecemos nos Estados Unidos, década de 1960. Bob Dylan, jovem magricela de voz fanhosa, lança “Blowin’ in the Wind” em 1962. A canção, com suas perguntas retóricas e acordes simples, tornou-se hino dos direitos civis. Dylan escreveu a música em apenas dez minutos, num café em Greenwich Village, Nova York. Ela rapidamente foi adotada por manifestantes que marchavam por igualdade racial, sobretudo depois que Peter, Paul and Mary gravaram sua própria versão. O mais curioso? Dylan dizia não saber a resposta para as perguntas da canção. Talvez seja esse o segredo: provocar, instigar, deixar um sopro de esperança “pairando no vento”.

Ainda nos EUA, outra canção que virou símbolo foi “Fortunate Son”, lançada pelo Creedence Clearwater Revival em 1969. A letra cutuca a ferida da Guerra do Vietnã e critica a desigualdade entre ricos e pobres – especialmente o fato de filhos de famílias abastadas escaparem do serviço militar, enquanto os menos favorecidos eram enviados à linha de frente. John Fogerty disse que escreveu a música em poucos minutos, logo após ver fotos do presidente Nixon com a filha, que estava noiva de David Eisenhower. O próprio Fogerty escapou do Vietnã, mas diz que a raiva pela injustiça deu o tom urgente dos acordes de guitarra.

No Brasil, a música de protesto tem história riquíssima. Anos de chumbo, censura pesada, mas também muita criatividade. “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, foi composta em 1968 em pleno regime militar. O refrão – “Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer” – virou senha de resistência. Vandré foi perseguido, a música proibida, mas o povo não deixou morrer. Até hoje, “Caminhando”, como também é conhecida, ressurge em manifestações de toda natureza, das diretas já às marchas pela democracia.

Outra joia nacional é “Apesar de Você”, de Chico Buarque, escrita em 1970 como recado cifrado para o então presidente Médici. Chico conseguiu enganar a censura inicialmente, mas logo o governo sacou o duplo sentido e a música foi banida. Detalhe saboroso: Chico dizia aos censores que a canção era sobre uma briga doméstica, com uma mulher mandona. Eles acreditaram – por alguns meses. Quando descobriram a real intenção, recolheram até os discos já vendidos.

Indo para a África do Sul, temos “Nkosi Sikelel’ iAfrika”. Composta por Enoch Sontonga em 1897, a música foi usada como hino de resistência contra o Apartheid e, após a queda do regime, tornou-se parte do hino nacional sul-africano. Cantada em diferentes línguas, ela unificou povos diversos em torno de um mesmo ideal: justiça e liberdade.

Na Europa, as músicas de protesto também deixaram marcas. Em 1971, John Lennon lança “Imagine”. Apesar de soar quase como uma canção de ninar, a letra propõe um mundo sem fronteiras, religião ou posses materiais – uma utopia perigosa para autoridades da época. Lennon foi vigiado pelo FBI por anos, considerado subversivo. Sua esposa, Yoko Ono, sempre disse que a música era mais dela do que dele, já que as ideias vieram de poemas que ela escrevia. Briga de casal que virou hino mundial.

Curiosamente, nos protestos mais recentes, como o movimento Black Lives Matter e as manifestações pró-democracia em Hong Kong, músicas antigas ganharam novos sentidos. “Alright” de Kendrick Lamar virou trilha dos protestos nos EUA em 2020. Já “Do You Hear the People Sing?”, do musical Les Misérables, foi trilha sonora das ruas de Hong Kong. A internet ajudou a criar mashups, versões remixadas, memes e desafios virais – porque protesto também se faz dançando, por que não?

Se há algo que une todos esses exemplos, é a capacidade da música de traduzir sentimentos complexos em versos simples. Seja contra a guerra, a censura, o racismo, a desigualdade ou qualquer injustiça, a música de protesto nunca sai de moda. O curioso é que muitas dessas canções foram escritas em minutos, mas levam anos – às vezes décadas – para ter seu verdadeiro impacto sentido.

Então, na próxima vez que você ouvir aquela batida marcante e letra afiada, lembre-se: por trás de uma boa música de protesto existe sempre uma boa história, um contexto cheio de nuances e, claro, a pulsação de quem não aceita calado o que está errado. E quer saber do melhor? Você pode escutar todos esses clássicos e muito mais no Soundz (https://soundz.com.br), a plataforma de streaming de música grátis onde você cria playlists, descobre novidades e ainda curte uma revista digital completa de diferentes assuntos. Porque protestar também pode ser divertido – e muito, muito sonoro.

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